Arquivo da tag: Sentimentos

Nada. Tudo.

Naqueles dias em que dá vontade de jogar tudo pro alto e sair por aí, sem rumo, pra outro mundo, outra vida. Sinto que nunca me adapto, nunca me encaixo, sempre falta um pouco, sempre tem um pouco demais. É fase. Passa. Amanhã tudo ficará bem. E amanhã tudo estará pior. É a vida. É a vida? Tudo tanto faz. Tudo faz diferença. Tudo me incomoda. Tudo é apatia. Ando cansada do que não sei e do que sei demais. Tudo está ótimo, tudo está ótimo. Mas há o vazio, a apatia. Amor demais, amor de menos. Um turbilhão de sentimentos. Uma letargia sem fim. Suspiro sem saber por que.

Quero colo…

“Exatamente assim. Pesada, sufocada. Ando com uma vontade tão grande de receber todos os afetos, todos os carinhos, todas as atenções.Quero colo, quero beijo, quero cafuné, abraço apertado, mensagem na madrugada, quero flores, quero doces, quero música, vento, cheiros … quero parar de me doar e começar a receber.

Sabe, eu acho que não sei fechar ciclos, colocar pontos finais. Comigo são sempre virgulas, aspas, reticências… eu vou gostando… eu vou cuidando, eu vou desculpando, eu vou superando, eu vou compreendendo, eu vou relevando, eu vou… e continuo indo, assim, desse jeito, sem virar páginas, sem colocar pontos… e vou… dando muito de mim, e aceitando o pouquinho que os outros tem para me dar.”
Ps: Segundo as citações de internet, o texto é de Caio Fernando Abreu. Não sei se é mesmo, mas gostei dele e por isso publiquei.

deixar morrer ou fazer viver…

Há pouco mais de 15 dias minha cachorrinha, a Sofia, começou a fazer xixi com sangue. Foi aquele susto, claro! Sofia não é de saúde muito forte, sabe? Desde muito nova ela apresenta vários quadros de doenças bizarras e graves.

Começou quando ela tinha uns 2 ou 3 anos, não lembro bem. A bichinha começou a fazer cocô com sangue, desidratar e quase morreu. Resultou que ela teve uma hemorragia intestinal de causa desconhecida. Algum problema com a alimentação, algo como não absorver bem os nutrientes. Chegou a ter um outro episódio desses, mais fraco, um ano mais tarde. Mas desde que começou a comer ração moída com frango e arroz, engordou um pouco (sempre foi bem magrela) e ficou bem.

Há 2 anos, Sofia acordou arrastando as patinhas traseiras. Estava paralítica. Corremos com ela pro veterinário e descobrimos que ela tem uma hérnia na coluna que, sei lá por qual razão, fez com que ela parasse de andar. Tratamento? Corticoide e acupuntura. Muitas sessões de acupuntura regadas a muito choro por ter que deixá-la presa, já que não podia forçar a coluna. Voltou a andar. Hoje manca um pouquinho, puxando a patinha direita, mas se não se é um bom observador, ninguém diz que ela já ficou paralítica.

E então voltamos à data de pouco mais de 15 dias atrás, quando ela acordou urinando sangue. De início, pensamos numa cistite aguda, algo que antibióticos e muita água resolveriam. Ela não chorava de dor, não me preocupei muito. Então o veterinário pede para fazer um ultrassom, porque quadros assim em cães muitas vezes significam pedra no rim ou na bexiga. Certo, vamos lá então. Estica a barriga, vira a bichinha de costas pra poder passar o gelzinho na barriguinha, a veterinária responsável encontra uma ferida na mama. Uma dermatite, talvez. “Peça pro veterinário dela dar uma olhada”.

Ultrassom e raio-x na mão, uma imagem que parecia uma pedra do tamanho de um sonho de valsa e um prognóstico pra mama: “Passe essa pomada. Se não melhorar em 3 dias, pode ser câncer.” Oi? Câncer? Ignorei. Resolvi focar no problema da bexiga, afinal ela teria que fazer uma cirurgia com anestesia geral, abrir a barriga, tirar uma pedra do tamanho de um bombom (Sofia é uma salsichinha, ela é bem pequena, por isso uma pedra do tamanho de um bombom é algo proporcionalmente absurdo). Pedra do tamanho de um bombom que resultou na verdade em 3 pedras menores, iguais a essas brancas de jardim. Impressionante.

Mas mais sério foi, no meio da cirurgia, o veterinário me ligar: “Mariana, a mama dela está bem estranha. Podemos tirar?” Isso é pergunta que se faça? Óbvio que sim! (Ok, acho que muitos “donos” não autorizariam tão facilmente…) Pronto, a pulga atrás da orelha ali se instalou. Foram 15 dias de recuperação, 2 curativos por dia e antibióticos, pensando no assunto: “Será que esse tumor é maligno ou benigno?”

Pois bem, hoje recebi a notícia de que Sofia está com câncer de mama e que é grave, estágio avançado. E daí, acompanhadas de muito choro, me vêm um monte de questões em relação a isso. Pra além da relação de afeto que a gente constroi com esses bichos, hoje vivemos num mundo em que os direitos dos animais praticamente se sobrepõem aos direitos humanos, pelo menos por parte de alguns grupos sociais. Ok, não vou entrar no mérito da validade disso. Não sou ativista dos direitos animais, como carne sem piedade e acho muita coisa um monte de ladainha. Mas vamos pensar naquilo que Foucault chama de “direito de morte e poder sobre a vida”, ou no poder que o soberano tinha de “fazer morrer e deixar viver”, lá no volume 1 do História da Sexualidade – A Vontade de Saber. Não vou explicar o que isso é. Se você tiver interesse, procure o livro aqui ou aqui.

É que como tenho lido esse livro recentemente, fiquei me perguntando em relação a essa história da Sofia qual é o direito que eu tenho de decidir sobre o rumo que o tratamento dela deve tomar. Se o câncer fosse em mim, eu, enquanto ser dotado de Razão, teria o direito, no limite, de escolher se quero ou não seguir um tratamento quimioterápico para me curar (isso, é claro, sem considerar que talvez o Estado me considerasse suicida, e daí isso implica um monte de outras questões). Mas a partir do momento em que a cadelinha de quem eu cuido tem essa doença, sou eu quem deve tomar essa decisão por ela, já que ela não tem a Razão necessária para isso. Pensando “racionalmente”, é claro que eu tenho que tratá-la, não é isso? Ela tem o direito de viver, ela é um ser vivo. Mas que direito tenho eu de tirá-la da rotina dela, levá-la para uma clínica impessoal, cheia de veterinários e agulhas, enfiar um monte de química no corpo dela, fazê-la passar por um monte de efeitos colaterais horríveis como vômitos e diarreias, sendo que agora, hoje, ela está ótima, brincando, aprontando como sempre aprontou, enfim, está na santa paz da vidinha de cachorrinha doméstica? Ela não pode virar e me dizer: “Ei, esquece. Me deixa viver meus últimos dias em paz, na minha casa. Quimioterapia é invenção de vocês, seres humanos. Me deixa aqui no meu canto de cachorro” ou “Por favor, me leve sim ao veterinário, vocês humanos são incrivelmente avançados, podem me salvar. Eu quero viver mais”.

Então fico eu, com esse poder soberano invertido da modernidade que me foi dado sem que eu pedisse, no dilema de decidir se “deixo morrer ou se faço viver”. Conviver com a culpa de não tê-la tratado e deixá-la morrer mais cedo, definhando nos últimos dias? Investir num tratamento que pode como não pode dar certo, e fazê-la sofrer com os efeitos da quimio? Eu juro que não sei o que fazer.

Hoje está sendo um dos dias mais duros da minha vida. A única coisa de que tenho certeza hoje é de que, pelo menos por um longo período de tempo depois que a Sofia morrer (semana que vem ou daqui a 5 anos, vai saber), não quero saber de ter um bicho de estimação sobre o qual terei esse poder soberano horrível. Não quero ter que decidir por nenhum bicho o direito dele de viver ou não, aplicar um direito a priori humano sobre um animal.

E sobretudo não quero sofrer outra vez o que estou sofrendo com a ideia de perder essa cachorrinha que amo tanto.

mas louco é quem me diz e não é feliz…

Hoje faltei à terapia. É, faltei mesmo e nem liguei pra terapeuta pra falar que não ia. E olha que é às 8h da manhã e ela teve que sair bem cedo de casa pra me atender. Mas fiz de propósito. Semana passada fiquei bem P da vida com o rumo que a conversa tomou. Primeiro que ela falou mais que eu. Já viram isso? Terapeuta falar mais que paciente? Pois foi assim que aconteceu.

Tinha faltado na semana anterior porque meu pai tinha ficado doente. Começamos a sessão por aí e eu mesma a levei pro rumo que mais me aflige nesse momento da vida que é o tempo. Ou melhor: a produção da falta dele, minha especialidade. Indisciplinada como muitos, tenho muita dificuldade em organizar minha vida pra fazer tudo o que tenho que fazer. E por algum motivo isso me fez procurar a terapia. Não sei se numa tentativa desesperada de alguém me dizer “tudo bem, você consegue mesmo assim!” (afinal, tudo o que queria era uma motivação) ou se por algo mais no fundo, que é o pavor da desaprovação. Pavor de não ser aprovada no mestrado, de passar vergonha, de querer ser mais do que meu caminhãozinho dá conta. (ok, mil outros motivos me levaram à terapia, mas fiquemos nesse por hoje).

Enfim, assunto à tona, com ele veio a coisa da tradução. Ela me perguntou se eu gostava de traduzir. Bem, eu adoro traduzir. E adoro a antropologia. Essa foi uma conclusão à qual cheguei esse ano e apesar de achar que não dou conta do recado, eu tô bem feliz de ter descoberto isso. Daí que papo vai, papo vem (mais vem do que vai), ela resolve querer justificar pq ficou falando tanto sobre língua, tradução, aprendizado de segundo idioma (ela até me confessou que não consegue aprender inglês! Mais uma vez: falou demais) e concluir: será que eu não preciso definir melhor as minhas paixões? Será que um mestrado na antropologia é realmente o que eu quero? Não seria melhor algo na área da linguística, para me restringir a uma paixão (já que eu não dou conta…)?

Ai, gente! Quase mandei a fulana pra puta-que-pariu! Primeiro pelo motivo mais aparente: agora que, depois de 3 anos brigando comigo mesma, eu volto e decidida, ela vem baixastralizar o rolê. Segundo por um motivo que é bem mais complexo: as pessoas simplesmente não entendem que TUDO BEM ter várias paixões. TUDO BEM não querer fazer uma única coisa da vida. Simplesmente TUDO BEM!

Tenho conversado bastante sobre isso com uma amiga querida, que talvez seja a que mais me compreende nesse sentido. A gente não quer casar. A gente não quer ter filhos. A gente não quer comprar uma casa num condomínio em Paulínia. Claro que a coisa da grana e da estabilidade nos assusta. Mas nos assusta em duplo sentido: não tê-las e passar muito perrengue na vida e tê-las e viver entendiado e embestalhado. Confesso que a segunda opção me assusta mais.

E daí que eu vou fazer terapia e – como fui ingênua em não pensar antes – nada mais normalizador que terapia, né? No primeiro dia já saquei que ia ser tenso. Se liga na fala da pessoa: “Precisamos entender por que uma moça bonita de 27 anos não namora…” Precisa falar mais?

Bem, daí que tomei a decisão: semana que vem vou, pago as sessões passadas e A-D-E-U-S! Se volto a fazer terapia um dia na vida? Não sei. Se um dia existir um terapeuta que não insista em normalizar os outros, pode ser.

Pra terminar, deixo uma citação de Clarice Lispector para todos os que acham que ser “normal” é querer o tédio.

“Quer saber o que eu penso? Você aguentaria conhecer minha verdade? Pois tome. Prove. Sinta. Eu tenho preguiça de quem não comete erros. Tenho profundo sono de quem prefere o morno. Eu gosto do risco. Dos que arriscam. Tenho admiração nata por quem segue o coração. Eu acredito nas pessoas livres. Liberdade de ser. Coragem boa de se mostrar. Dar a cara a tapa! Ser louca, estranha, chata! Eu sou assim. Tenho um milhão de defeitos. Sou volúvel. Tenho uma TPM horrível. Sou viciada em gente. Adoro ficar sozinha. Mas eu vivo para sentir. Por isso, eu te peço. Me provoque. Me beije a boca. Me desafie. Me tire do sério. Me tire do tédio. Vire meu mundo do avesso! Mas, pelo amor de Deus, me faça sentir… Um beliscãozinho que for, me dê. Eu quero rir até a barriga doer. Chorar e ficar com cara de sapo. Este é o meu alimento: palavras para uma alma com fome. “

pedras no caminho

Ultimamente tenho pensado nessa história de escolhas e decisões. Nunca fui muito da galera da “ação”, que acha que o sujeito está no controle de tudo, e também nunca achei que somos completas marionetes de uma chamada “estrutura”. Na verdade, eu continuo no meio do caminho, como tudo na vida. Eu sempre fico no meio do caminho. Sabe aquela pedra de Drummond? Pois é, parece que eu a encontro em todos os meus caminhos.

A questão é: será que essa pedra é colocada no meio dos meus caminhos, ou sou eu quem a coloco lá? É muito louco como eu sou capaz de começar uma coisa na vida e depois simplesmente desistir. Ou talvez eu não devesse chamar de “desistência”, mas de “unfinished business”. Um exemplo simples? Um cachecol que comecei a tecer há 2 anos e ainda não acabei. Ou os colares que fazia há uns 5 anos e ao que nunca mais dei continuidade.

No quesito “vida”, por assim dizer, é verdade que nem tudo ficou para terminar. Terminei a escola e a faculdade, por exemplo. Mas desde que voltei do Canadá, a sensação que eu tenho é que tudo o que eu começo eu simplesmente não consigo terminar (salvo o curso de licenciatura que, gosh, foi bem difícil terminar). Parece que todas as portas que se abrem pra mim eu insisto em fechar.

E então eu olho pra frente e tento ver novos horizontes, novos caminhos abertos – e eles até existem. Mas então começo a me perguntar: quando é que vou colocar – ou serão colocadas – novas pedras no meio dos meus caminhos? E a pergunta que mais me angustia: será que vale a pena continuar?