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O machismo nosso de cada dia

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Marcha das Vadias 2012.

Essa semana tá rolando pelas redes sociais a divulgação de uma pesquisa feita pela idealizadora da campanha Chega de Fiu Fiu. A pesquisa, parte da campanha, entrevistou quase 8 mil mulheres e encontrou um percentual de mais ou menos 99% de mulheres que dizem já ter ouvido/sofrido algum tipo de cantada/assédio verbal ou físico nas ruas.

Bem, sobre a pesquisa e a campanha você pode ler aqui e aqui. O que me motivou a escrever esse post não foi explicá-la em si, mas sim compartilhar uma situação que aconteceu comigo no ano passado.

Numa tarde de calor, vestia uma blusinha tomara que caia e uma calça larga, mas que sim, marca um pouco o desenho do meu corpo. E friso esse detalhe antes que me digam: “mas você usava uma roupa provocante?”. Se ela era provocante ou não, não me importa. Uso o que eu quiser. Podem olhar, podem achar bonito, podem achar feio. Mas eu uso o que eu quiser e fim de conversa. Não tem essa de “saia curta demais”, “blusa decotada demais”.

Enfim, o fato é que naquele dia fui a um shopping próximo à minha casa, onde também tem um mercado, e antes de fazer as compras que minha mãe tinha pedido, resolvi dar uma volta e olhar as vitrines. Até que ouço um “oi, tudo bem?”. Educada, olhei e respondi, imaginando até que pudesse conhecer aquele homem de algum lugar, pois me acontece muito de me esquecer da fisionomia das pessoas. Só de olhar para ele, quando respondi, percebi os seus olhares me despindo. Senti nojo, asco. E percebi que minha educação tinha sido, para ele, uma resposta a algum tipo de paquera. E o mais louco foi que eu não consegui simplesmente me virar e ir embora. Era como se, no fundo, eu imaginasse que tinha sido uma impressão errada, e que eu de fato o conhecia de algum lugar.

Então, ele continuou o diálogo dizendo que queria que eu o acompanhasse “até ali” pra conhecer um amigo dele. “Meu filho, que amigo? Tá maluco?”. Obviamente, eu disse que não, que não ia a lugar nenhum, e aí sim saí andando, já ciente de que se tratava de uma paquera imbecil.

Neste ponto eu já estava incomodada, mas até aí tudo bem, era só um cara dando em cima de mim (no meio do shopping. Oi?) e eu dando o fora nele. Não que eu ache isso ideal, mas as pessoas se xavecam por aí, e contanto que não haja invasão e falta de respeito, ok. E de fato, até aquele momento, apesar dos olhares nojentos, ele não tinha de fato me desrespeitado. Só que tudo piorou muito quando, ao sair andando, ele veio atrás de mim, fazendo perguntas, querendo saber por que eu estava ali, o que ia comprar. Eu tentava ignorar, apenas dizendo pra ele sair dali, que já tava me enchendo o saco. Mas ele insistia e ficava falando mole, dizendo que o amigo dele, que “estava ali”, queria me conhecer, e que eu era muito linda e blá blá blá. E eu dizendo “sai daqui, me deixa em paz” e ele continuando a me perseguir. Até que comecei a gritar “você vai parar de me seguir ou eu vou ter que chamar a segurança??”, “Sai daqui!!! Me deixa em paz!!!” e então foi só aí que ele se mancou, percebendo que as pessoas começaram a olhar, e parou de andar atrás de mim.

Fui ao mercado, apavorada, olhando para todos os lados, para me certificar de que ele não estava à espreita. No estacionamento, coberto e deserto, corri pro carro com medo de ser surpreendida e finalmente, estuprada. Foi a pior sensação da minha vida.

Para ele, certamente, o que fez não foi um ato de violência. Era só uma paquera numa tarde de dezembro quente. Qual o mal disso, sua louca? O mal disso, amigo, é que a partir do momento em que eu disse “não, não quero conhecer seu ‘amigo'”, e que você ficou andando atrás de mim, isso foi sim uma violência. Pode não ter sido um estupro, pode não ter sido uma agressão verbal à là “te chupava toda”, mas você ultrapassou uma barreira simbólica muito importante, que foi o meu “não”. Tivesse parado no momento em que eu disse a primeira vez, eu teria lidado com o fato de uma forma leve, pensando “é cada um que me aparece…”. Mas a sua insistência, os seus olhares, o fato de você me perseguir pelo shopping, isso constituiu sim, pra mim, uma forma de agressão. Eu me senti acuada, observada, fragilizada. E se isso não é violento, não sei mais o que é.

Algumas amigas dirão que eu estou exagerando. Que isso não é o mesmo que estupro. E de fato, não é o mesmo que estupro. Mas o princípio é o mesmo: ele ultrapassou uma barreira que não deveria ter ultrapassado. E ele só fez isso porque é homem e eu sou mulher.

Homens e mulheres, na sociedade machista em que vivemos, acham esse tipo de situação normal. Minha própria mãe, naquele dia, fez piada com o assunto: “olha lá, arrasando corações no shopping!”. Fiquei muito triste com esse comentário e chegamos mesmo a ter um leve desentendimento. Mas, finalmente, ela compreendeu o que eu senti e não fez mais esse tipo de brincadeira. Infelizmente, contudo, isso foi só mais um exemplo do modo como a nossa sociedade trata as mulheres: como um objeto digno de todo tipo de intervenção. E isso vai de uma simples baliza que uma mulher, “claro”, é incapaz de fazer (jogue a primeira pedra a mulher que nunca passou pela situação infernal de ter um homem guiando a baliza: “vira, vira, vira! Isso! Volta, volta, volta!”) até a mais cruel realidade dos estupros.

Enfim, isso foi só uma reflexão, provavelmente cheia de contradições e dificuldades. Afinal, também cresci e vivo numa sociedade machista. E me livrar dessa educação é um trabalho que faço diariamente e que todo mundo deveria fazer.

Imagem daqui.

Menino não usa vestido?

Pesquisas à parte e esquecendo o olhar que minha pesquisa dá a certos aspectos de blogs maternos, não consegui deixar de compartilhar esse post por aqui.
Não tenho filhos. Nem sei se terei. Mas tenho 2 sobrinhos, um menino e uma menina, e quando li esse post não consegui não me identificar de algum modo.
Não sei se essa é uma preocupação da minha irmã e do meu cunhado. Creio que seja, mas talvez não de maneira tão acirrada quanto a minha. Exemplifico: se Catarina quer brincar com meus colares e Miguel também, eu incentivo (bem, agora nem mais tanto, dada a destruição do colar que minha amiga Karina me deu…rs). Se Catarina quer brincar de passar batom e Miguel também, eu não me importo de deixar. Magaly, minha irmã, não gosta tanto, afinal, batom não é coisa de criança – nem de Catarina, nem de Miguel. Neste caso, ela não tá dizendo “menino não pode”. Ela tá dizendo “criança não pode” (isso pode ter mil outras implicações, que deixo de fora aqui). Se Miguel quer usar a saia de balé da irmã na festa de aniversário do pai (como o fez esse ano), ai de quem olhar pra ele e dizer que, oh, tadinho, vai ser gay! E o contrário tbm vale: se a Cata quiser jogar futebol, serei a primeira a pegar a bola e jogar com ela (tão bem ou bem pior do que ela…rs). Se a Cata quiser brincar de pintar um bigode na cara (nunca vi acontecer, mas poderia), eu pintaria feliz!
Enfim, assim como a Nanda lá do blog, eu tbm me irrito muito com essas divisões de papéis de gênero: judô pra menino, dança pra menina. Ora bolas! As atividades são pra todos, não?
É por isso que adoro quando o Café brinca com a Cata e diz que quer pegar o vestido dela pra ele. Dá pano pra manga quando ela diz que “menino não usa vestido”. Ah, usa sim! Um dia ainda faço uma atividade lúdica com ela e saio mostrando fotos de homens vestidos com roupas convencionalmente de mulheres. laerteAdoro fazer um fuzuê na cabecinha dela. E quando Miguel estiver na idade, também farei. Porque, com o andar da carruagem, logo mais ele dirá que “lutar de espada” é coisa de menino.
Enfim, esse será meu papel de tia. E se um dia eu for mãe, farei questão de ensinar “m-(e)-inh-(u)-a filhx” que saias também são pra meninos e que menina também joga futebol.