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Verão ou inverno?

Quando cheguei em Montréal, em abril de 2007, fazia 10 graus. A neve estava derretendo e as pessoas usavam camisetas, shorts, vestidos, saias e sandálias. Eu, brasileira, saída de uma temperatura de mais ou menos 30 graus, estava literalmente congelando. Usava gorro, luvas, um casaco por cima de umas 3 blusas, meia-calça, calça jeans, bota, meia de lã. Entro na casa em que iria morar e, tão friamente como a neve, a hostesse me cumprimenta com um aperto de mãos e uma minissaia. “Onde foi que eu vim parar?”, pensei. Logo ali já pensei que enfrentaria aquele frio até o fim da minha estadia. Um país onde o frio chega a -45 graus não pode fazer muito calor mesmo.

Durante mais ou menos 1 mês, enfrentei temperaturas que iam dos 18 graus a zero. Minha principal companhia durante muitos dias foi minha jaqueta, e a primeira coisa que fazia quando acordava era ligar a televisão ou o computador para checar a meteorologia. Descobri que falar sobre “the weather” ou “la méteo” não era assunto de elevador para quebrar o gelo, mas sim “a real subject”, “un vrai sujet”.

Daí a temperatura começou a aumentar. Média de 25 graus diários, a temperatura perfeita. Cheguei, é verdade, a enfrentar uns poucos dias de 42 graus. É, é isso mesmo: 42. As casas, todas preparadas para o inverno rigoroso, e a falta de ventiladores (não me lembro de ter visto nenhum para vender), aff, tudo isso fez esse pedacinho de verão se tornar insuportável.

Mas durou pouco. A partir de agosto/setembro, as temperaturas começaram a cair. A cidade pela qual eu tinha me apaixonado no verão começava a mostrar sua face mais obscura. Eu diria que foi como um relacionamento amoroso: logo no início você ainda não conhece muito bem, ainda acha algumas coisas estranhas, mas depois você só tem olhos para aquilo que é bom. A paixão se aquece, você acha que nunca mais vai conseguir viver sem aquela pessoa, daí ela começa a mostrar lados antes desconhecidos e você pensa: “Opa! O que é que está acontecendo? Acho que não te amo tanto assim…”.

Pois é. A outono começou – e que coisa mais linda aquelas folhas de bordo avermelhadas! -, e em seguida vieram as tempestades de neve. Eu levava mais ou menos 20 minutos para me trocar. Não os mesmos 20 que levo aqui, escolhendo a roupa que vou vestir. No frio de -15, a gente não escolhe muito. Eram 20 minutos para colocar a meia-calça, a calça, a meia de lã, a bota, a blusa de algodão, a blusa de lã, o colete, o casaco, o gorro, a luva e o cachecol (ufa! será que esqueci de alguma coisa?). E o pior é que do lado de fora eu só estaria por poucos minutos. Para entrar no metrô, era só atravessar a rua. Mas arriscar 5 minutos sem tudo isso de roupa? Não dá. Ah! E nada mais irritante que chegar na esquina e descobrir que tinha esquecido alguma coisa em casa. Volta, tira a bota e tira as luvas. Que inferno!

Só que hoje, depois do calor que passei, desses de quase desmaiar, comecei a me perguntar se gosto tanto do verão assim. Bem, não dá pra dizer ainda que prefiro a neve, mas se essa história de aquecimento global for verdade, ah, meus queridos, acho bom todo mundo começar a pensar em mudar pro hemisfério norte. Se aqui o sertão virar mar ou o mar virar sertão, lá ao menos a gente vai conseguir colocar os pés pra fora de casa, sem congelar e sem derreter. Será?;)

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