carro X transporte público

(Peço perdão pelos palavrões que lerão a seguir.)

Lula, você é um cara legal. Sério mesmo, eu gosto de você. Votei 2 vezes em você, mesmo discordando de muita coisa que fez, mesmo sabendo que você sabia do mensalão, mesmo sabendo que sua política desenvolvimentista tinha muitos problemas.

Mas puta que pariu, cara! Por que é que você foi reduzir aquela merda de IPI ao invés de investir dinheiro no fuckin’ transporte público?!?!?! Metrô, ônibus, trem, pelamor!! Mas em nome da ascensão das classes mais baixas, você deu crédito pra galera comprar carro e agora as cidades viraram um caos (coisa que já eram antes)!

Antes que alguém me chame de classista e diga “ah, você tem carro, por que os outros não podem ter?”, eu não estou dizendo que as pessoas não possam ter carro, que “o povão saiu comprando carro, olha aí no que deu”. Não. As pessoas podem ter carro. Claro que podem. Num mundo em que não haja 7 bilhões de habitantes, em que monóxido de carbono não polua e em que as estradas e ruas tenham 5x mais capacidade de suportar a quantidade de carro que está aí.

De que adianta dar crédito pra comprar carro se logo mais as pessoas não vão mais conseguir se locomover nas cidades porque tá tudo entupido?? Exemplifico: 5 anos atrás, quando eu saía da minha casa no Jd. Nova Europa e ia pra Barão Geraldo às 18h, dificilmente eu levava mais do que 45 minutos pra chegar lá. Isso já era muito, dado que em condições normais eu levo uns 20 a 25 minutos. Pois bem, ontem eu levei 1h20 (!!!!!!!) pra chegar em Barão. Ok, chovia. Ok, o semáforo do fim do tapetão tava apagado e não tinha nenhum agente de trânsito pra controlar a zona. Mas olhasse pra dentro dos carros e visse que em cada um deles havia somente o motorista e mais ninguém (como eu, inclusive) pra entender do que eu tô falando. Alguém me diga: isso é sustentável??

E quanto à primeira pergunta que fiz acima, é claro que eu sei a resposta. Afinal, botar na mão da população a responsabilidade total por suas necessidades básicas é política de praxe de qualquer governo, seja do PT ou de qualquer outro partido. Uma lástima.

Ps: Se alguém ainda estiver pensando que sou classista e não quero que o “povão” tenha carro, digo para parar para pensar em lugares onde o transporte público funciona e onde pessoas com o mesmo poder aquisitivo que eu preferem se locomover de metrô ou ônibus. Se funcionasse, venderia meu carro sem pestanejar. Talvez nunca tivesse comprado um. Odeio dirigir e acho que as pessoas jorram todo o seu desrespeito ao ser humano quando estão dentro de suas máquinas potentes. Mas em tempos em que se leva mais de 1h em trajetos que antes se fazia em 30 minutos, imaginem pegar o ônibus em Campinas, pagar 3 absurdos reais por ele, e levar o triplo do tempo? E daí o círculo vicioso está posto. Enquanto ninguém quebrar esse ciclo investindo dinheiro de peso em transporte público, chuchus, estaremos fadados ao caos.

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papai noel e a varinha de condão

– ‘O que você quer ganhar do papai noel, minha filha?”

– “Uma varinha de condão!”

E eis que o papai noel leva a varinha de condão…

– “Papai noel, a Ana quebrou a minha varinha de condão e eu fiquei muito brava, mas eu vou consertar!”

– “Eu te dou outra, minha filha.”

E eis que, com a varinha de condão, ainda se teve direito a saia rodada e um chapéu de fada.

Papai noel surgiu  pelo menos 4 vezes na vidinha da Catarina esse ano. Os olhinhos brilharam, ela saiu correndo pra ver de onde vinha o sininho que tocava lá fora. Quando voltou, o saco vermelho, e junto com ele, a ingenuidade doce de uma criança.

Papai noel é um velhinho porco capitalista, é verdade. Mas a magia em torno da sua figura e a alegria nos olhos da criança não pelos presentes, mas pela ideia de alguém que pensou nela e na sua varinha de condão, isso não tem preço.

Só espero que com sua varinha de condão Catarina consiga ser a fada madrinha de todos os nossos natais.

Quero colo…

“Exatamente assim. Pesada, sufocada. Ando com uma vontade tão grande de receber todos os afetos, todos os carinhos, todas as atenções.Quero colo, quero beijo, quero cafuné, abraço apertado, mensagem na madrugada, quero flores, quero doces, quero música, vento, cheiros … quero parar de me doar e começar a receber.

Sabe, eu acho que não sei fechar ciclos, colocar pontos finais. Comigo são sempre virgulas, aspas, reticências… eu vou gostando… eu vou cuidando, eu vou desculpando, eu vou superando, eu vou compreendendo, eu vou relevando, eu vou… e continuo indo, assim, desse jeito, sem virar páginas, sem colocar pontos… e vou… dando muito de mim, e aceitando o pouquinho que os outros tem para me dar.”
Ps: Segundo as citações de internet, o texto é de Caio Fernando Abreu. Não sei se é mesmo, mas gostei dele e por isso publiquei.

Não é liberdade de expressão, nem argumento. É despeito.

Tão logo a notícia do câncer de Lula veio à tona, as manifestações em relação à sua doença começaram a pipocar pela Internet. Não sou muito assídua no twitter, não sei o que tá rolando por lá, mas infelizmente, no meu feed do facebook, logo vi piadinhas grotescas sobre o Lula e o “pedido” a ele para usar o Sistema Único de Saúde, o SUS.

Na mesma hora bloqueei quem se (in)dignou a postar tamanha estapafúrdia. Recuso-me a ler qualquer outra coisa que alguém que faz piada com a desgraça alheia tem a dizer. Esta não merece o meu tempo, nem o meu respeito.

Felizmente, a maioria das pessoas que sigo no facebook é gente bacana, de boas opiniões, de bom senso. As manifestações contra a esse tipo de piada foram várias, e isso me deixou mais aliviada. Aliviada por saber que ao meu redor estão pessoas com quem consigo conversar, que não são toscas, que respeitam o próximo.

Mas ao mesmo tempo, estou bastante triste e revoltada com esse tipo de situação. A gente tá vivendo uma onda pela “liberdade de expressão” em que os limites, muito tênues, entre falta de respeito e liberdade de dizer o que se pensa, estão sendo o tempo todo ultrapassados. Vide recentes casos de Rafinha Bastos, Danilo Gentilli e toda a trupe do CQC.

Outro dia, conversando com a minha orientadora, falávamos sobre essa onda de piadas de mau gosto. E ela disse uma coisa muito certa: a piada desrespeitosa aparece quando a pessoa não tem mais argumentos para defender seu ponto de vista. Ela não sabe dizer por que não gosta de uma coisa ou de alguém, e parte para a baixaria. E o caso do câncer de Lula é o exemplo mais evidente disso.

Mandar o Lula se tratar pelo SUS não só é uma tremenda ignorância em relação ao que é esse sistema de saúde respeitado no mundo inteiro (e com isso eu não digo que não haja muitos problemas), como é uma manifestação classista enojante. As mesmas pessoas que mandam o Lula se tratar pelo SUS não conhecem um hospital público de perto e vangloriam os Estados Unidos como o país modelo a ser seguido. Só não sabem, é claro, que o sistema de saúde americano é talvez o mais desumano do mundo, em que um paciente que não paga o seguro saúde simplesmente não é atendido em nenhum hospital, e ponto final. Talvez se realizassem o sonho da emigração, entendessem na pele o que é ser pobre num país que caga e anda pra sua saúde, como os EUA.

A piada com o câncer de Lula é, portanto, somente mais uma manifestação de despeito. Lula é de origem pobre. Lula é nordestino. Lula é “analfabeto”. Lula não tem curso superior. Lula não fala inglês. Mas Lula governou o Brasil por 8 anos e deu à classe C acesso a coisas que só a classe B e A possuíam. A classe C comprou carro. A classe C comprou casa. Lula acendeu nessa classe média-alta emergente (especialmente a paulista) um medo (à la Regina Duarte) do contato com gente pobre. Como assim um homem do povo se torna presidente e dá a outras pessoas do povo as mesmas oportunidades que um “cidadão de bem” (e medo tenho eu dessa gente), que paga seus impostos e que come queijo brie no final de semana? Como assim o celular da minha empregada é melhor do que o meu? Como assim o pedreiro que de vez em quando me presta serviço trocou de carro e eu ainda não?

Talvez essas pessoas não digam tudo isso abertamente, talvez elas nem tenham tanta consciência disso. Mas toda vez que eu pergunto “Por que você não gosta do Lula?”, só o que eu escuto é: “Ah, ele é analfabeto”, “Ele não sabe nem falar inglês”, “Ele não fala direito”, “Ah, sei lá, não gosto e ponto.” Isso não é argumento, isso é despeito. Fale sobre uma política pública da qual você discorda (e mesmo quando falam, é sempre sobre o Bolsa Família, que criou um monte de vagabundos que não querem trabalhar…” – mais uma vez, não é argumento), fale sobre uma medida tomada que prejudicou o país, fale sobre a aprovação da construção da usina de Belo Monte, sobre o incentivo à soja na Amazônia, sobre o aumento da dívida interna, sobre a condescendência à corrupção, fale sobre tudo isso, e daí podemos conversar. Mas não me diga que ele é analfabeto. Analfabeto é o Tiririca. E você, paulista, que sempre elege o José Serra e o Geraldo Alckmin, você que elegeu o Tiririca, diga-me onde está a contradição.

Ricky Martin e Chico Buarque sim, e daí?

Na última sexta-feira tive o prazer de estar presente no show do gatíssimo Ricky Martin (dispensa apresentações, né?), e ao divulgar isso no facebook, minha querida irmã pareceu inconformada por eu ter perdido meu tempo num evento como esse. Vindo dela (né, irmãzinha?), não me surpreende. Fomos criadas ouvindo boa música (seja lá o que isso for, claro), e como não somos ricas e não temos todo o tempo do mundo, por que não selecionar melhor o que a gente vai ver?

Eu super entendo a posição da minha irmã. E até concordo com ela. Afinal, existem tantas coisas legais acontecendo por aí (apesar da gente ser meio mal informado!), então como assim eu vou “sacudir até São Paulo” (pra usar a expressão dela) pra ver justo o Ricky Martin? Ele é lindo, mas a música é ruim e ainda por cima é gay! (não num sentido homofóbico, claro, mas num sentido de que, nem que fosse possível invadir o camarote dele e agarrá-lo, não ia adiantar, porque ele é gayzaço, assumidaço! rs rs).

E daí eu fiquei pensando cá com meus botões: por que cargas d’água eu tenho que ver só o que eu considero excelente? Por que a gente (e “a gente” aqui é igual a “pseudointelectuais meio de esquerda”) não pode se dar o prazer de assistir a uma comédia romântica (tipo “O Amor não tira férias”, que eu simplesmente amooo!rs rs ) ou a um show de alguém com musicalidade duvidosa (apesar de eu adoooorar “María”…hahah) sem se  sentir um completo idiota?

Desde a adolescência eu sempre adotei uma posição de “eu sou superior a vocês, que gostam de sertanejo”,   dizendo que gostava de forró quando ninguém gostava (e abandonando o gosto quando virou moda), que ouvia Chico Buarque porque era um grande poeta (que ninguém mais além de mim entendia, claro), e que meu cantor favorito era Lenine (e ainda é, acho) e que o sujeito que dizia que gostava dele por causa de “Paciência” era um ignorante.

Permaneci nessa posição até 2007, 2008 mais ou menos. Em 2007, quando fui pro Canadá, me permiti ouvir músicas diferentes, já que eu estava fora do Brasil e Chico Buarque não toca nas rádios de Montréal. Naturalmente, eu ainda resistia bastante, afinal “a música brasileira é a melhor do mundo”. Mas foi quando entrei pra Livraria Cultura e conheci pessoas incríveis que não ouviam só música brasileira (aliás, o que eu conhecia de música brasileira, que obviamente é muito menos do que a realidade), é que deixei meus ouvidos se abrirem e conhecer um mundo muito, mas muito maior do que Chico e Lenine.

Vejam, não estou dizendo que meus amigos culturetes curtem o Ricky Martin (aliás, se algum deles ler isso daqui, pode ter um chilique se entender assim!hahaha), mas sim que, ao mesmo tempo em que fui deixando novas coisas de altíssima qualidade entrar no meu mundo musical, também fui perdendo a vergonha de admitir que sim, eu gosto de verdade de Ricky Martin, Backstreet Boys e tudo o que tiver de tão pop quanto eles por aí. #prontofalei

E assim como eu gosto de música classificada como “ruim” (e eu não quero entrar no mérito do que é bom ou não, porque é tãããão relativo…), eu também leio feliz (descoberta bem recente, aliás…) Sophie Kinsella e Mariam Keyes. Qual o problema?? Desde que eu  não perca o senso crítico e não deixe de ler e escutar coisas que eu considero realmente de alta qualidade, não vejo  problema nenhum em consumir essas coisas.

E neguinho que fica com frescura com o pop e que só anda com o Dostoiévski debaixo do braço que me desculpe,  mas não é completamente feliz! Liberte-se, amiguinho! Dar risada e falar um pouco de bobagem de vez em quando faz  bem! 😉

desapego

Foi realmente um exercício de desapego, mas hoje joguei fora minhas agendas que guardava desde 1995…! ok, ok, como assim, 1995!!? Pois é, mas eram minhas memórias, minha história. Praticamente toda menina que cresceu na década de 90 fez de sua agenda o seu diário, não adianta negar. E ali, haja coisa pra contar! Só que chega uma hora que outros pedaços da história pedem espaço nos armários e gavetas, e você fica lembrando das pessoas que têm a tal da síndrome da acumulação compulsiva  e que guardam coisas absolutamente inúteis e não conseguem nunca se desfazer daquilo. Daí você abre a sua gaveta e diz: ok, hoje vocês vão pro lixo.

Não foi fácil. Primeiro porque deu vontade de ficar lendo tudo o que eu escrevi ali. Era o início da minha pré-adolescência, foi quando eu comecei a escrever sobre minhas paixonites, e depois aquilo foi se aprimorando e minhas agendas foram virando um artefato artístico, cheio recadinhos de amigas, de colagens e desenhos malfeitos. Tudo quanto é papel de bombom, chocolate, flyer, bilhete de cinema, de teatro, de shows e o que mais desse na telha eu colava nas agendas. E as fotos, então? Cada evento de que eu tivesse alguma foto, eu punha um clip pra segurar a foto na data correspondente. E clips bem coloridos, claro. E achei cada uma, gente…Umas que nem hesitei em jogar fora (tem gente nessa vida que a gente faz questão de esquecer, né?), mas outras que me deram aquela nostalgia gostosa…Gente que eu não vejo há anos, de quem perdi o contato – e nem adianta tentar os telefones velhos anotados, pois ou teve dígito adicionado, ou a pessoa já mudou o número faz tempo.

É, realmente não foi simples. Principalmente porque evitei ao máximo ficar relendo cada página. Teria sido incrível, com certeza. Mas eu não teria coragem de ter jogado tudo fora e elas estariam entulhadas em algum canto de armário até que eu decidisse, daqui há alguns anos, tocar nelas outra vez. Como eu disse, é a minha história. E como assim botar no lixo esses fragmentos de “Mariana”? Pois é. Mas é uma outra Mariana, uma Mariana que fez essa Mariana de hoje, mas que já não faz mais sentido para mim. São páginas literalmente viradas, com lindas lembranças que devem ficar guardadas em mim, e não em gavetas juntando pó. E assim foi: gavetas renovadas, com espaço para outras histórias.

(Agora paro por aqui, porque tá me dando comichão e eu estou quase indo lá na lixeira catar as agendas de volta. Vou parar de falar no assunto pra ver se sossego o facho e não cometo essa loucura!! hahaha)