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As idas e vindas de uma paciente ao mundo dos ortopedistas e afins.

prontuário médico

Tem mais de 1 ano que eu não posto nada por aqui. Tenho priorizado o facebook, mas como ando com vontade de falar muito sobre mim e minha saga aos médicos pra resolver minhas dores na perna, achei por bem voltar pra cá e parar de encher meus amigos facebookianos com meus momentos “meu diário”. Aqui, lê quem quer. Ou não lê ninguém.

Então, bora lá. A ideia é só desabafar e dar o resumo do que tem acontecido. É meio minha forma de berrar pro mundo: “médicos, vocês não sabem nada!!!”. Tá, eles até sabem alguma coisa. Eles estudaram muito, né? Mas eles bem podiam admitir que a medicina não resolverá os problemas do mundo inteiro e que não, eles não sabem tudo. O problema é o rei na barriga e achar que eles têm a resposta imediata, sabe? Tudo bem, eu acho que a gente vai ao médico em busca de uma resposta mesmo. Mas se eles nos fossem sinceros logo de cara e dissessem “olha, a medicina não é uma ciência exata e cada caso que chega a gente tem que investigar como único”, eu pelo menos já ficaria mais satisfeita.

Doutor, sempre fui muito sedentária, e daí comecei a fazer aulas de pilates e de dança de salão, tudo junto ao mesmo tempo agora. Só que daí comecei a sentir uma dor no quadril, mais localizada na virilha, mas que tbm se espalha pra região do glúteo. De vez em quando também sinto dormência nos pés, especialmente quando dirijo longas distâncias.

Médico 1: você tem uma bursite. Tome um antiinflamatório e tudo ficará bem. Não resolveu.
Médico 2: é, você talvez tenha uma lesão na cartilagem do fêmur que a gente pode, quem sabe, encontrar numa cirurgia simplezinha, nem vai doer.
Médico 3: o colega tem razão. Você tem uma lesão na cartilagem do quadril, um problema chamado “impacto fêmuro-acetabular”, e que se você não operar com urgência, em 10 anos você pára de andar.
Médico 4: a cirurgia é simples, você toma uma anestesiazinha geral, a gente raspa a cabeça do fêmur, e em 1 mês você, talvez, não sinta mais nenhuma dor. Mas o material que eu uso pra cirurgia a Unimed não tá querendo cobrir, e cada uma das peças que eu uso custam 2 mil reais.
Médico 5: a cirurgia não é simples. A anestesia é geral, sim, e você não poderá andar por 2 meses inteiros. Depois da fisioterapia, que deve durar 1 mês, eu penso se te libero para andar sem muletas. O material que eu uso a Unimed cobre sim e esse médico aí que quis te vender o outro material é um babaca, um boçal.
Médico 6: cirurgia?!? Como assim?? Antes a gente vai fazer fisioterapia para ver se você melhora.
Fisioterapeuta 1: você tem uma ciatalgia (dor no ciático) e uma quadrialgia (dor no quadril). Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Fisioterapeuta 2: ah, tem alguma coisa ali na L2 ou L5 (nomes de vértebras…pode ser algo diferente, já nem sei mais).
Fisio 1, dois meses depois: ah, essa menina tá é com uma pubalgia (dor no púbis) – o coitado já tá quase fazendo uma tese sobre mim.
Fisio 3 ou osteopata: com a osteopatia suas dores vão melhorar muito, especialmente essa dormência na região lombar (que começou durante a fisioterapia, não por causa dela, mas certamente por culpa da Fapesp). E as dores melhoraram 95%.
Médico 6, de novo: vamos pedir uma ressonância da coluna e da bacia para ver como é que anda e se não tem aí uma hérnia de disco que tá te provocando essa dormência.
Médico 7: olha, para te ser sincero, você não tem nada. No máximo você teve uma inflamação por algum movimento feito no pilates que, se você tivesse curado na hora certa, não teria desenvolvido todo esse histórico. Não precisa de fisioterapia e nem de cirurgia. Pode voltar a dançar e pode voltar pro pilates, fique tranquila.

E durante tudo isso, eu faço uma pesquisa que envolve pensar sobre o sistema de saúde brasileiro. Bem, posso ou não posso ser ultra pós-moderna e escrever um capítulo sobre a minha saga aos médicos e dizer pq eu entendo as mulheres que trocam de médico 15 vezes durante a gestação?

Imagem daqui.

Quero colo…

“Exatamente assim. Pesada, sufocada. Ando com uma vontade tão grande de receber todos os afetos, todos os carinhos, todas as atenções.Quero colo, quero beijo, quero cafuné, abraço apertado, mensagem na madrugada, quero flores, quero doces, quero música, vento, cheiros … quero parar de me doar e começar a receber.

Sabe, eu acho que não sei fechar ciclos, colocar pontos finais. Comigo são sempre virgulas, aspas, reticências… eu vou gostando… eu vou cuidando, eu vou desculpando, eu vou superando, eu vou compreendendo, eu vou relevando, eu vou… e continuo indo, assim, desse jeito, sem virar páginas, sem colocar pontos… e vou… dando muito de mim, e aceitando o pouquinho que os outros tem para me dar.”
Ps: Segundo as citações de internet, o texto é de Caio Fernando Abreu. Não sei se é mesmo, mas gostei dele e por isso publiquei.

desapego

Foi realmente um exercício de desapego, mas hoje joguei fora minhas agendas que guardava desde 1995…! ok, ok, como assim, 1995!!? Pois é, mas eram minhas memórias, minha história. Praticamente toda menina que cresceu na década de 90 fez de sua agenda o seu diário, não adianta negar. E ali, haja coisa pra contar! Só que chega uma hora que outros pedaços da história pedem espaço nos armários e gavetas, e você fica lembrando das pessoas que têm a tal da síndrome da acumulação compulsiva  e que guardam coisas absolutamente inúteis e não conseguem nunca se desfazer daquilo. Daí você abre a sua gaveta e diz: ok, hoje vocês vão pro lixo.

Não foi fácil. Primeiro porque deu vontade de ficar lendo tudo o que eu escrevi ali. Era o início da minha pré-adolescência, foi quando eu comecei a escrever sobre minhas paixonites, e depois aquilo foi se aprimorando e minhas agendas foram virando um artefato artístico, cheio recadinhos de amigas, de colagens e desenhos malfeitos. Tudo quanto é papel de bombom, chocolate, flyer, bilhete de cinema, de teatro, de shows e o que mais desse na telha eu colava nas agendas. E as fotos, então? Cada evento de que eu tivesse alguma foto, eu punha um clip pra segurar a foto na data correspondente. E clips bem coloridos, claro. E achei cada uma, gente…Umas que nem hesitei em jogar fora (tem gente nessa vida que a gente faz questão de esquecer, né?), mas outras que me deram aquela nostalgia gostosa…Gente que eu não vejo há anos, de quem perdi o contato – e nem adianta tentar os telefones velhos anotados, pois ou teve dígito adicionado, ou a pessoa já mudou o número faz tempo.

É, realmente não foi simples. Principalmente porque evitei ao máximo ficar relendo cada página. Teria sido incrível, com certeza. Mas eu não teria coragem de ter jogado tudo fora e elas estariam entulhadas em algum canto de armário até que eu decidisse, daqui há alguns anos, tocar nelas outra vez. Como eu disse, é a minha história. E como assim botar no lixo esses fragmentos de “Mariana”? Pois é. Mas é uma outra Mariana, uma Mariana que fez essa Mariana de hoje, mas que já não faz mais sentido para mim. São páginas literalmente viradas, com lindas lembranças que devem ficar guardadas em mim, e não em gavetas juntando pó. E assim foi: gavetas renovadas, com espaço para outras histórias.

(Agora paro por aqui, porque tá me dando comichão e eu estou quase indo lá na lixeira catar as agendas de volta. Vou parar de falar no assunto pra ver se sossego o facho e não cometo essa loucura!! hahaha)

 

mas louco é quem me diz e não é feliz…

Hoje faltei à terapia. É, faltei mesmo e nem liguei pra terapeuta pra falar que não ia. E olha que é às 8h da manhã e ela teve que sair bem cedo de casa pra me atender. Mas fiz de propósito. Semana passada fiquei bem P da vida com o rumo que a conversa tomou. Primeiro que ela falou mais que eu. Já viram isso? Terapeuta falar mais que paciente? Pois foi assim que aconteceu.

Tinha faltado na semana anterior porque meu pai tinha ficado doente. Começamos a sessão por aí e eu mesma a levei pro rumo que mais me aflige nesse momento da vida que é o tempo. Ou melhor: a produção da falta dele, minha especialidade. Indisciplinada como muitos, tenho muita dificuldade em organizar minha vida pra fazer tudo o que tenho que fazer. E por algum motivo isso me fez procurar a terapia. Não sei se numa tentativa desesperada de alguém me dizer “tudo bem, você consegue mesmo assim!” (afinal, tudo o que queria era uma motivação) ou se por algo mais no fundo, que é o pavor da desaprovação. Pavor de não ser aprovada no mestrado, de passar vergonha, de querer ser mais do que meu caminhãozinho dá conta. (ok, mil outros motivos me levaram à terapia, mas fiquemos nesse por hoje).

Enfim, assunto à tona, com ele veio a coisa da tradução. Ela me perguntou se eu gostava de traduzir. Bem, eu adoro traduzir. E adoro a antropologia. Essa foi uma conclusão à qual cheguei esse ano e apesar de achar que não dou conta do recado, eu tô bem feliz de ter descoberto isso. Daí que papo vai, papo vem (mais vem do que vai), ela resolve querer justificar pq ficou falando tanto sobre língua, tradução, aprendizado de segundo idioma (ela até me confessou que não consegue aprender inglês! Mais uma vez: falou demais) e concluir: será que eu não preciso definir melhor as minhas paixões? Será que um mestrado na antropologia é realmente o que eu quero? Não seria melhor algo na área da linguística, para me restringir a uma paixão (já que eu não dou conta…)?

Ai, gente! Quase mandei a fulana pra puta-que-pariu! Primeiro pelo motivo mais aparente: agora que, depois de 3 anos brigando comigo mesma, eu volto e decidida, ela vem baixastralizar o rolê. Segundo por um motivo que é bem mais complexo: as pessoas simplesmente não entendem que TUDO BEM ter várias paixões. TUDO BEM não querer fazer uma única coisa da vida. Simplesmente TUDO BEM!

Tenho conversado bastante sobre isso com uma amiga querida, que talvez seja a que mais me compreende nesse sentido. A gente não quer casar. A gente não quer ter filhos. A gente não quer comprar uma casa num condomínio em Paulínia. Claro que a coisa da grana e da estabilidade nos assusta. Mas nos assusta em duplo sentido: não tê-las e passar muito perrengue na vida e tê-las e viver entendiado e embestalhado. Confesso que a segunda opção me assusta mais.

E daí que eu vou fazer terapia e – como fui ingênua em não pensar antes – nada mais normalizador que terapia, né? No primeiro dia já saquei que ia ser tenso. Se liga na fala da pessoa: “Precisamos entender por que uma moça bonita de 27 anos não namora…” Precisa falar mais?

Bem, daí que tomei a decisão: semana que vem vou, pago as sessões passadas e A-D-E-U-S! Se volto a fazer terapia um dia na vida? Não sei. Se um dia existir um terapeuta que não insista em normalizar os outros, pode ser.

Pra terminar, deixo uma citação de Clarice Lispector para todos os que acham que ser “normal” é querer o tédio.

“Quer saber o que eu penso? Você aguentaria conhecer minha verdade? Pois tome. Prove. Sinta. Eu tenho preguiça de quem não comete erros. Tenho profundo sono de quem prefere o morno. Eu gosto do risco. Dos que arriscam. Tenho admiração nata por quem segue o coração. Eu acredito nas pessoas livres. Liberdade de ser. Coragem boa de se mostrar. Dar a cara a tapa! Ser louca, estranha, chata! Eu sou assim. Tenho um milhão de defeitos. Sou volúvel. Tenho uma TPM horrível. Sou viciada em gente. Adoro ficar sozinha. Mas eu vivo para sentir. Por isso, eu te peço. Me provoque. Me beije a boca. Me desafie. Me tire do sério. Me tire do tédio. Vire meu mundo do avesso! Mas, pelo amor de Deus, me faça sentir… Um beliscãozinho que for, me dê. Eu quero rir até a barriga doer. Chorar e ficar com cara de sapo. Este é o meu alimento: palavras para uma alma com fome. “