Arquivo mensal: janeiro 2014

Eu prefiro ir ao cinema

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Eu prefiro ir ao cinema a ver um filme em casa. Mil vezes. Milhões de vezes mais. 

Tenho tentado entender essa coisa de ver filme pelo computador, baixar filme, achar sites que passem filmes online (aliás, tem mesmo um ótimo, o Megafilmeshd.net, cheio de coisa legal). De fato, é uma opção ótima, mas para mim ela só é ótima para 2 coisas: ver séries americanas e ver filmes que já saíram de cartaz.

Entre ver filmes na internet e alugar numa locadora qualquer, é claro que também existem diferenças: a primeira delas é a qualidade. Na internet, o som pode estar dessincronizado com a imagem, ou também haver inúmeras interrupções por conta de problemas na conexão. Nada mais insuportável que estar curtindo um filme deitado na sua cama e a merda do círculozinho rodante aparecer dizendo um eterno “carregando”. Ou então (não sei se mais ou menos grave), a imagem ficar congelando de 5 em 5 segundos. É uó.

A segunda diferença é uma coisa que eu costumava gostar muito quando alugava filmes com frequência: olhar para uma prateleira de filmes e ficar horas e horas lendo as sinopses e escolhendo o que ia assistir. Numa tela de computador, a visualização é diferente. Até há sites que tentam fazer uma grade que se assemelha a uma prateleira de locadora, mas não chega aos pés. Se você também é do tipo que não se adaptou aos e-books, é provável que entenda do que estou falando. Afinal, ler um livro no Kindle ou no Ipad não será jamais a mesma coisa que folhear as páginas de um livro de papel. Bem, para mim, o lance dos filmes tem o mesmo impacto.

Mas ok. Também me rendi ao mundo da internet. Embora eu não tenha o menor talento para baixar filmes, se eles vêm facinho assim, que nem no Megafilmeshd, é realmente um passo muito rápido por um motivo muito simples: não te custa nada além do que você já paga pela internet. Porra, é de graça! Como não cair nessa tentação? Aí a gente até releva o eterno “loading”, até se conforma com as imagens congelando – pelo menos até aonde a paciência chegar, quando você desliga o computador e se rende aos canais abertos da tv.

Também tem um outro aspecto que é de uma certa “inclusão”, digamos assim, de quem não pode ir ao cinema ou alugar um filme na locadora. Coloquei “inclusão” entre aspas porque não tenho nenhum dado sobre o assunto e eu sempre desconfio desse discurso otimista sobre a internet ser um espaço de todos e para todos. De todo modo, é inegável que haver filmes, músicas e séries disponíveis gratuitamente pode ao menos ter o potencial de inclusão. E daí que quem não tem tv a cabo ou grana/tempo para ir ao cinema, ao menos pode ver o filme em casa. 

Vamos a um exemplo concreto do mundo de que faço parte: o mundo dos estudantes da Unicamp. Bem, é de mais ou menos conhecimento geral da nação que o transporte público campineiro é um desastre. Tragédia pura (embora haja pesquisas que contradigam o fato, coisa que nunca entendi). Daí que para quem mora em Barão Geraldo, o distrito onde a Unicamp se localiza, pegar um bus até o cinema mais próximo (Shop. Dom Pedro) pode ser uma aventura. É realmente de chorar saber que quem está de carro leva 10 minutos para chegar do centro de Barão ao shopping, e quem pega um busão pode levar até 2h, a depender do dia e do horário. E mais: o melhor cinema da cidade – na minha opinião, o cinema Topázio -, fica a 25km de Barão Geraldo. Portanto, dá pra imaginar a Via Crúcis. 

Enfim, daí que realmente fica extremamente complicado um ser humano sem carro, morando em Barão (e olha que nem tô falando da periferia!), se locomover para um cinema nessa cidade. E daí, tendo a possibilidade de baixar filmes na internet, por que ele vai gastar o dinheiro dele alugando um filme na 100% vídeo ou na PhD? E mais: para os casos de lançamentos do cinema, o cara tem acesso a eles na internet. Então, se chegar o cinema é difícil e se custa caro pagar pelo ingresso, como não preferir baixar? Eu jamais poderia argumentar contra isso, especialmente pq eu tenho um carro e não passo pela Via Crúcis de busão.

Mas daí eu quero falar justamente desse ponto: eu tenho um carro. Posso ir a todos os cinemas da cidade com conforto. Posso ir ao Topázio (do lado de casa), ao Dom Pedro (do outro lado da cidade), ao Iguatemi e ao Galleria (longes também da minha casa). Em alguns raramente vou, por questão de grana (são mais caros) e de qualidade dos filmes (só tem blockbuster hollywoodiano para os quais não tenho paciência). Enfim, o que eu quero dizer é: se vc, morador distante dos cinemas, tem um carro, por que cargas d’água você ainda prefere ver filmes nas condições acima descritas?

Ok, ok, eu sei que o cinema tá caro. É realmente um absurdo. Mas pensa no seguinte: tamanho da tela, qualidade do som, qualidade da imagem, enquadramento, fora o rolê de ver gente, ir ao cinema acompanhado, comentar com os amigos…Enfim! Como isso pode não ser melhor do que ver filmes travando no sofá velho de casa? Será que de vez em quando não compensa o esforço? Que seja pelo menos pra ver algum filme que você acha que realmente vale a pena?

Bem, eu queria deixar claro que eu sei que são diversas as condições das pessoas. Eu sei que tem gente que não pode pagar 10 reais num cinema (qdo a meia entrada tá barata assim). Eu sei que tem lugares na cidade que são muito distantes dos cinemas. Portanto, não é de gente nessa situação de quem eu tô falando.

Na verdade, o meu questionamento fica para os moradores de Campinas (é bom ser específica) que têm uma preguiça estrutural de levantar a bunda de seus apartamentos próprios e pegar seus carros com ar condicionado para ir ao cinema, sabe? Porque, pra mim, simplesmente não é possível que a pessoa ache mesmo preferível ver o filme no computador (mesmo que ela tenha hometheater e as porras todas) a ver o filme na sua qualidade máxima na tela de um cinema. Pra mim, tem gente que tem preguiça e ponto final. E o pior é que essa mesma gente preguiçosa, moradora de Campinas (bato na tecla), não nega esforços para ir a São Paulo, no Espaço Itaú, para ver às vezes o mesmo filme que tá passando no Topázio.

Pra terminar, queria dizer que talvez eu tivesse um dia que fazer uma etnografia na casa das pessoas e entender a relação delas com os filmes e quem sabe perder meu preconceito em relação a elas. Certamente há outras coisas envolvidas nessa preferência, mas eu, nesse momento, estou sendo militante e não acadêmica. E como militante, cheia de meus dogmas, digo: vá ao cinema, colega. É infinitamente melhor.