Arquivo mensal: abril 2011

mas louco é quem me diz e não é feliz…

Hoje faltei à terapia. É, faltei mesmo e nem liguei pra terapeuta pra falar que não ia. E olha que é às 8h da manhã e ela teve que sair bem cedo de casa pra me atender. Mas fiz de propósito. Semana passada fiquei bem P da vida com o rumo que a conversa tomou. Primeiro que ela falou mais que eu. Já viram isso? Terapeuta falar mais que paciente? Pois foi assim que aconteceu.

Tinha faltado na semana anterior porque meu pai tinha ficado doente. Começamos a sessão por aí e eu mesma a levei pro rumo que mais me aflige nesse momento da vida que é o tempo. Ou melhor: a produção da falta dele, minha especialidade. Indisciplinada como muitos, tenho muita dificuldade em organizar minha vida pra fazer tudo o que tenho que fazer. E por algum motivo isso me fez procurar a terapia. Não sei se numa tentativa desesperada de alguém me dizer “tudo bem, você consegue mesmo assim!” (afinal, tudo o que queria era uma motivação) ou se por algo mais no fundo, que é o pavor da desaprovação. Pavor de não ser aprovada no mestrado, de passar vergonha, de querer ser mais do que meu caminhãozinho dá conta. (ok, mil outros motivos me levaram à terapia, mas fiquemos nesse por hoje).

Enfim, assunto à tona, com ele veio a coisa da tradução. Ela me perguntou se eu gostava de traduzir. Bem, eu adoro traduzir. E adoro a antropologia. Essa foi uma conclusão à qual cheguei esse ano e apesar de achar que não dou conta do recado, eu tô bem feliz de ter descoberto isso. Daí que papo vai, papo vem (mais vem do que vai), ela resolve querer justificar pq ficou falando tanto sobre língua, tradução, aprendizado de segundo idioma (ela até me confessou que não consegue aprender inglês! Mais uma vez: falou demais) e concluir: será que eu não preciso definir melhor as minhas paixões? Será que um mestrado na antropologia é realmente o que eu quero? Não seria melhor algo na área da linguística, para me restringir a uma paixão (já que eu não dou conta…)?

Ai, gente! Quase mandei a fulana pra puta-que-pariu! Primeiro pelo motivo mais aparente: agora que, depois de 3 anos brigando comigo mesma, eu volto e decidida, ela vem baixastralizar o rolê. Segundo por um motivo que é bem mais complexo: as pessoas simplesmente não entendem que TUDO BEM ter várias paixões. TUDO BEM não querer fazer uma única coisa da vida. Simplesmente TUDO BEM!

Tenho conversado bastante sobre isso com uma amiga querida, que talvez seja a que mais me compreende nesse sentido. A gente não quer casar. A gente não quer ter filhos. A gente não quer comprar uma casa num condomínio em Paulínia. Claro que a coisa da grana e da estabilidade nos assusta. Mas nos assusta em duplo sentido: não tê-las e passar muito perrengue na vida e tê-las e viver entendiado e embestalhado. Confesso que a segunda opção me assusta mais.

E daí que eu vou fazer terapia e – como fui ingênua em não pensar antes – nada mais normalizador que terapia, né? No primeiro dia já saquei que ia ser tenso. Se liga na fala da pessoa: “Precisamos entender por que uma moça bonita de 27 anos não namora…” Precisa falar mais?

Bem, daí que tomei a decisão: semana que vem vou, pago as sessões passadas e A-D-E-U-S! Se volto a fazer terapia um dia na vida? Não sei. Se um dia existir um terapeuta que não insista em normalizar os outros, pode ser.

Pra terminar, deixo uma citação de Clarice Lispector para todos os que acham que ser “normal” é querer o tédio.

“Quer saber o que eu penso? Você aguentaria conhecer minha verdade? Pois tome. Prove. Sinta. Eu tenho preguiça de quem não comete erros. Tenho profundo sono de quem prefere o morno. Eu gosto do risco. Dos que arriscam. Tenho admiração nata por quem segue o coração. Eu acredito nas pessoas livres. Liberdade de ser. Coragem boa de se mostrar. Dar a cara a tapa! Ser louca, estranha, chata! Eu sou assim. Tenho um milhão de defeitos. Sou volúvel. Tenho uma TPM horrível. Sou viciada em gente. Adoro ficar sozinha. Mas eu vivo para sentir. Por isso, eu te peço. Me provoque. Me beije a boca. Me desafie. Me tire do sério. Me tire do tédio. Vire meu mundo do avesso! Mas, pelo amor de Deus, me faça sentir… Um beliscãozinho que for, me dê. Eu quero rir até a barriga doer. Chorar e ficar com cara de sapo. Este é o meu alimento: palavras para uma alma com fome. “