Arquivo mensal: janeiro 2011

Localização

Você sabe o que é “Localização”? Pois é. Eu também não.

Na realidade, estou descobrindo um mundo totalmente novo com esse curso de tradução que estou fazendo. É bem verdade que trata-se de um curso levemente fraco, desses online, que a gente paga o olho da cara pra ter 1h30 de aula por semana. Mas de todo modo, no fim do curso ganho um certificado reconhecido pela Abrates, a Associação Brasileira de Tradutores e Intépretes e ainda por cima, consigo ter uma ideia do que é esse mundo da tradução.

Quando a gente fala de tradução, pelo menos até onde eu conseguia imaginar, a gente sempre pensa em traduzir um currículo, um e-mail, uma carta, o resumo de uma tese. Mas esse mundo é gigante. Ele é muito maior. E esse módulo sobre “Localização” tá me abrindo os olhos pra isso.

Você já parou pra pensar que o “WordPress” foi criado em inglês? E você já reparou que existem versões em outras línguas para ele? Já se deparou com frases bizarras no Facebook do tipo “Mariana foi votada nas eleições”, tradução automática e malfeita da frase “Mariana has voted in the elections”? Já tentou traduzir alguma frase no Google Translator e encontrou uma resposta estranhíssima ao que procurava? Bem, para que Facebook, WordPress, Orkut, Gmail, Yahoo, etc, etc, etc, tenham uma versão em português, existe muito trabalho por trás disso. As empresas que criam não só esses sites, mas também softwares como um editor de imagens ou um conversor de mp3, elas contratam (terceirizando) tradutores profissionais que se especializaram em fazer esse tipo de trabalho. Esse é o tradutor de localização.

Mas como assim localização? Bem, o tradutor deve pegar aquela ideia – seja de um software, de uma rede social ou a campanha publicitária do McDonald’s – e “localizar” para o país receptor desse novo produto. É ele que vai transformar “I’m lovin’ it” em “Amo muito tudo isso”. Foram pessoas como ele que decidiram que “Save a file” no Brasil viraria “Salvar documento” e em Portugal “Guardar ficheiro”.

E a gente olha pra tudo isso com uma naturalidade, né? Mesmo a minha geração – que é um pouco mais jovem que a geração Coca-Cola, mas não é tão tecnológica como a geração pós Muro de Berlim -, mal se lembra da época em que os computadores vinham todos em inglês e que a coisas como “file”, “save as”, “open”, “close” foram as primeiras palavras do vocabulário estrangeiro para parte das crianças brasileiras.

Para complementar isso tudo que tentei explicar – isso porque nem entrei na parte técnica, que é um porre, na verdade -, posto aqui um vídeo daquele programa da Globo News, o “Mundo S.A.”, em que a tradução de localização foi tema. Enjoy it! Aproveite! Profitez-en!

Verão ou inverno?

Quando cheguei em Montréal, em abril de 2007, fazia 10 graus. A neve estava derretendo e as pessoas usavam camisetas, shorts, vestidos, saias e sandálias. Eu, brasileira, saída de uma temperatura de mais ou menos 30 graus, estava literalmente congelando. Usava gorro, luvas, um casaco por cima de umas 3 blusas, meia-calça, calça jeans, bota, meia de lã. Entro na casa em que iria morar e, tão friamente como a neve, a hostesse me cumprimenta com um aperto de mãos e uma minissaia. “Onde foi que eu vim parar?”, pensei. Logo ali já pensei que enfrentaria aquele frio até o fim da minha estadia. Um país onde o frio chega a -45 graus não pode fazer muito calor mesmo.

Durante mais ou menos 1 mês, enfrentei temperaturas que iam dos 18 graus a zero. Minha principal companhia durante muitos dias foi minha jaqueta, e a primeira coisa que fazia quando acordava era ligar a televisão ou o computador para checar a meteorologia. Descobri que falar sobre “the weather” ou “la méteo” não era assunto de elevador para quebrar o gelo, mas sim “a real subject”, “un vrai sujet”.

Daí a temperatura começou a aumentar. Média de 25 graus diários, a temperatura perfeita. Cheguei, é verdade, a enfrentar uns poucos dias de 42 graus. É, é isso mesmo: 42. As casas, todas preparadas para o inverno rigoroso, e a falta de ventiladores (não me lembro de ter visto nenhum para vender), aff, tudo isso fez esse pedacinho de verão se tornar insuportável.

Mas durou pouco. A partir de agosto/setembro, as temperaturas começaram a cair. A cidade pela qual eu tinha me apaixonado no verão começava a mostrar sua face mais obscura. Eu diria que foi como um relacionamento amoroso: logo no início você ainda não conhece muito bem, ainda acha algumas coisas estranhas, mas depois você só tem olhos para aquilo que é bom. A paixão se aquece, você acha que nunca mais vai conseguir viver sem aquela pessoa, daí ela começa a mostrar lados antes desconhecidos e você pensa: “Opa! O que é que está acontecendo? Acho que não te amo tanto assim…”.

Pois é. A outono começou – e que coisa mais linda aquelas folhas de bordo avermelhadas! -, e em seguida vieram as tempestades de neve. Eu levava mais ou menos 20 minutos para me trocar. Não os mesmos 20 que levo aqui, escolhendo a roupa que vou vestir. No frio de -15, a gente não escolhe muito. Eram 20 minutos para colocar a meia-calça, a calça, a meia de lã, a bota, a blusa de algodão, a blusa de lã, o colete, o casaco, o gorro, a luva e o cachecol (ufa! será que esqueci de alguma coisa?). E o pior é que do lado de fora eu só estaria por poucos minutos. Para entrar no metrô, era só atravessar a rua. Mas arriscar 5 minutos sem tudo isso de roupa? Não dá. Ah! E nada mais irritante que chegar na esquina e descobrir que tinha esquecido alguma coisa em casa. Volta, tira a bota e tira as luvas. Que inferno!

Só que hoje, depois do calor que passei, desses de quase desmaiar, comecei a me perguntar se gosto tanto do verão assim. Bem, não dá pra dizer ainda que prefiro a neve, mas se essa história de aquecimento global for verdade, ah, meus queridos, acho bom todo mundo começar a pensar em mudar pro hemisfério norte. Se aqui o sertão virar mar ou o mar virar sertão, lá ao menos a gente vai conseguir colocar os pés pra fora de casa, sem congelar e sem derreter. Será?;)